Manuel S. Porteiro
por Jon Aizpurua

A história do movimento espírita está ainda por ser escrita de um modo integral e objetivo, e em correspondência com os critérios que modernamente definem a sistematização historiográfica.

As carências e deficiências se apresentam, em vários aspectos fundamentais: vazios na informação, extravio de documentos e pouco interesse em sua conservação e catalogação; escassa presença de profissionais de história no meio espírita. E, adicionalmente, algo que consideramos pernicioso, a contaminação da informação histórica por parte de adeptos exaltados, que adotam uma atitude maniqueísta quando escrevem sobre certos personagens do Espiritismo, seja cantando-lhes panegíricos e loas exageradas a seus preferidos, colocando-os em pedestais quase sobre-humanos ou, ao contrário, negando todo o mérito a quem poderiam representar opiniões diferentes das que eles adotam.

Havendo perdido toda a objetividade, escrevem a história não como ela é, mas com como gostariam que ela fosse. O próprio Kardec e outras figuras fundamentais do pensamento espírita, têm sofrido numerosas distorções, que é necessário ir corrigindo.

Dizemos isso a propósito do personagem do qual nos ocupamos agora e que, com toda justiça, o jornal Abertura selecionou entre os 20 pensadores espíritas de maior relevância no século 20, nosso querido e admirado Manuel S. Porteiro. Que, não apenas batalhou a favor de uma visão livre pensadora, progressista e humanista da doutrina kardecista, como também enfrentou as desqualificações que lançaram a seu tempo os setores místicos e conservadores do Espiritismo na Argentina, seu país natal. Acusaram-no de “comunista”, “ateu”, “anti religioso”e outros adjetivos. E, após sua desencarnação, a estratégia desses setores mudou de rumo e decidiram estender um manto de silêncio sobre seu nome, sobre sua vida e seu pensamento. Chegou-se a proibir “fraternalmente”, a leitura de seus livros.

Quando nos dispusemos a escrever um livro para recuperar sua memória histórica, conferir os dados básicos de sua trajetória vital, e dar a conhecer seu pensamento às novas gerações espíritas, tropeçamos com essa muralha de silêncio que se ergueu sobre sua vida e sua obra. Felizmente, pudemos faze-lo e nossa obra O Pensamento Vivo de Porteiro se encontra em suas edições em espanhol e em português, a disposição dos leitores que não se atemorizam ante os anátemas e as proibições inquisitoriais de algumas federações.

Porteiro foi um espírita completo. Humilde trabalhador manual, amoroso pai de família, autodidata que adquiriu com esforço e imensos sacrifícios uma extraordinária formação intelectual, até chegar a dominar amplos espaços no mundo da cultura, da sociologia, da filosofia e, naturalmente, da Doutrina Espírita.

Nasceu em Avellaneda , província de Buenos Aires, em 25 de março de 1881 e desencarnou, ali mesmo, em 18 de fevereiro de 1936. Em 1910 começou sua participações ativa no movimento espírita, vinculando-se desde esse momento à Confederação Espírita Argentina (CEA), na qual foi desempenhando diversos cargos, até chegar a ser seu presidente, no período de abril de 1934 a março de 1935. Dirigiu durante vários anos seu órgão oficial, a revista La Idea, na qual escreveu numerosos editoriais e artigos sobre os mais variados temas, sempre sob a ótica espírita.

Nessa época, sob a segura direção de Porteiro, a CEA e La Idea constituíram a vanguarda progressista do Espiritismo na América e no mundo. A partir daí, Porteiro, e seu grupo de abnegados trabalhadores espíritas, como Hugo Lino Nale, Bernabé Morera, Ageo Culzoni, Luis Postiglioni e os jovens Santiago Bossero e Humberto Mariotti, escreviam com paixão, viajavam incessantemente por todo o país, dirigindo cursos de formação espírita e fomentavam as relações com o movimento espírita internacional.

O meridiano principal do mundo espírita progressista passava obrigatoriamente, naquela época, pela Argentina e Porteiro era seu referencial fundamental.

Eram essas as linhas básicas de seu pensamento e sobre elas girava todo o seu esforço: sustentar a visão integral do Espiritismo como filosofia científica com profundas conseqüências morais e sociais; rechaçar a definição do Espiritismo como religião ou como uma nova variante do cristianismo; colocar a necessidade do estudo da Doutrina como base para criar a convicção espírita, começando com as obras de Kardec, como base pedagógica; subordinar a mediunidade ao enfoque espírita para faze-la racional, útil e orientadora; estimular a investigação experimental no campo dos fenômenos mediúnicos e paranormais; enfrentar as superstições e sincretismos que se mimetizam ou disfarçam com os rótulos espíritas; relacionar o movimento espírita nacional e internacional com as lutas pela paz mundial, contra a discriminação de qualquer classe, com as campanhas alfabetizadoras e com todo o esforço que tenda à construção de uma sociedade mais justa, livre, igualitária e fraterna.

Esplêndidas diretrizes que, em si mesmas, representam autênticos programas para desenvolver um Espiritismo dinâmico, culto, livre, aberto, adogmático, racionalista, laico, universalista, fraterno, solidário e amoroso.

Para expô-las e defendê-las, viajou Porteiro, em companhia de Mariotti, para participar do V Congresso Espírita Internacional, realizado em Barcelona, Espanha, em outubro de 1934. Nesse cenário, onde conviviam e divergiam as correntes latina e saxônica do Espiritismo, brilhou o talento de Porteiro e a profundidade de sua formação doutrinária se fez sentir em diversas exposições e conferencias públicas, que inspiraram respeito e fizeram-no credor de um amplo reconhecimento, como um dos líderes espíritas de maior prestígio em sua época.

Um elemento principal de seu pensamento e que constitui uma de suas contribuições mais originais, é a aplicação do método dialético na interpretação espírita do homem, da vida e do Universo. Ninguém antes dele e ninguém melhor do que ele até agora, soube empregar o método dialético para sustentar a concepção espiritualista e ao mesmo tempo demonstrar que, apesar do que se aceita tradicionalmente, as doutrinas materialistas que se apresentam a si mesmas como as donas da dialética, são em sua essência, profundamente anti-dialéticas.

Nessa mesma direção e ratificação da originalidade de suas idéias, Porteiro mostrou-se um firme partidário de uma sociologia espírita, que se traduzisse numa proposta concreta, na qual o Espiritismo e o Socialismo se conjugavam para impulsionar a construção de uma sociedade de maior evolução material e espiritual. Por ora, pela brevidade que impõe este artigo, basta dizer que Porteiro, já em seu tempo, criticou fortemente as tendências autoritárias, burocráticas, estatizantes, materialistas do socialismo marxista e se manifestou por um socialismo democrático, humanista, respeitoso das liberdades públicas e individuais, baseado em valores ideológicos espiritualistas e concretamente, espírita, como haviam assumido ilustres personalidades do kardecismo como Léon Denis e Cosme Mariño.

Em seus três livros publicados Espiritismo Dialético, Conceito Espírita da Sociologia e Origem das Idéias Morais, assim como em centenas de artigos que estão espalhados pela imprensa espírita de seu tempo, se encontram magistralmente desenvolvidas todas suas idéias que foram, são e continuarão sendo, potentes focos de luz que orientam a todo aquele que havendo conhecido os princípios cardeais do Espiritismo, deseja aprofundar-se em sua conseqüências morais e sociais e queira transitar, sem desvios, por seus autênticos caminhos.

Sem dúvida alguma, Porteiro está na galeria dos grandes do Espiritismo e muitos nos honra haver contribuído para resgatar sua memória e exaltar o imenso valor de sua contribuição à Doutrina que tanto amou e ao movimento a que tanto serviu.

 

 

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