Grande parte da organização do mundo moderno se deve ao império que Roma foi capaz de construir há dois mil anos em torno do mar Mediterrâneo. Os idiomas falados no sul da Europa, América Latina e outras partes do mundo constituem uma das heranças diretas da civilização romana.
Sob o título Roma antiga estuda-se todo o dilatado período que compreende as origens de Roma, no século VIII a.C., a fase monárquica, a república romana e o império, até o ano 476 da era cristã, quando ocorre o fim do Império Romano do Ocidente.
Origens da cidade. No século VIII a.C., duas grandes civilizações haviam lançado suas bases na península itálica: nas terras onde posteriormente se localizaria a Toscana, as avançadas cidades etruscas se aproximavam do auge de seu esplendor; no sul da península e na Sicília, a chamada Magna Grécia implantava uma cultura semelhante à da Hélade, em cidades como Tarento e Siracusa.
Os demais povos que habitavam a Itália, como os latinos e os samnitas, dispersos entre aqueles dois grupos, encontravam-se num estágio pouco desenvolvido de civilização. As aldeias que iriam formar a Roma dos reis e as outras aglomerações rústicas do Lácio nos séculos IX e VIII a.C. partilhavam língua e costumes religiosos e se unificaram mediante essa identidade cultural.

Na parte central da península itálica, o rio Tibre, já próximo de sua desembocadura, atravessava uma região de terras pantanosas, entre as quais se destacavam algumas colinas cobertas de bosques. O local era estratégico para os povos vizinhos: os latinos ali pastoreavam seus rebanhos; os sabinos comerciavam o sal da costa e o transportavam rio acima; e os etruscos afluíam do norte para vender seus produtos manufaturados às populações ribeirinhas, menos desenvolvidas. Na colina do Palatino, às margens do Tibre, estabeleceu-se em meados do século VIII um núcleo populacional composto de agricultores e criadores de gado, entre os quais devia haver também comerciantes.
Em épocas posteriores, diversos autores recolheram e deram forma literária a antigas lendas sobre a fundação da cidade, que teve sua data fixada convencionalmente em 753 a.C. Segundo essas lendas, o fundador, Rômulo, descendia do herói troiano Enéias e foi amamentado, junto com seu irmão Remo, por uma loba, que se converteu no símbolo da cidade.

Monarquia. De acordo com as fontes tradicionais, sete reis governaram Roma ao longo de dois séculos e meio, período durante o qual o território dominado pelos romanos passou por uma paulatina expansão. Os quatro primeiros monarcas, Rômulo, Numa Pompílio, Tulo Hostílio e Anco Márcio, parecem ser totalmente lendários, e acredita-se que tanto seus nomes quanto seus feitos foram imaginados e narrados muitos séculos após a fundação da cidade. Os três últimos soberanos foram os etruscos Tarqüínio o Velho, Sérvio Túlio e Tarqüínio o Soberbo, de existência mais documentada, cujos governos se estenderam pela maior parte do século VI.
A monarquia etrusca coincidiu com uma época de notável progresso econômico e cultural: os romanos, povo de mentalidade prática, adotaram o alfabeto grego e o modificaram até criar o alfabeto latino, que seria posteriormente utilizado por quase todos os idiomas do mundo. Tanto os etruscos do norte quanto os gregos do sul tiveram influência significativa na formação da cultura especificamente latina. Roma, que não passava de um aglomerado de aldeias, converteu-se numa verdadeira cidade, na qual os reis etruscos executaram grandes obras públicas: saneamento, construções de templos e de locais públicos de reunião.
É provável que a expulsão dos etruscos tenha, na verdade, ocorrido vários decênios depois de 509 a.C., a data convencionalmente fixada para sua ocorrência. O último rei, Tarqüínio o Soberbo, foi deposto pelos cidadãos de Roma, que instauraram então o regime republicano.
República.

Patrícios e plebeus. Nos primeiros tempos da república, só os membros das famílias mais poderosas habilitavam-se a participar do governo da cidade. Seu poder era exercido pelo Senado, uma assembléia integrada pelos chefes das principais famílias, que exerciam o cargo a título vitalício. As tensões entre patrícios e plebeus fizeram com que estes últimos recorressem, por duas vezes, a movimentos de secessão, mediante a retirada para fora dos muros de Roma e a recusa de cumprir obrigações militares. Obrigado a aceitar suas condições, o Senado acabou por autorizar a criação de assembléias de plebeus. Essas assembléias nomeavam os tribunos da plebe, os quais gozavam de imunidade e eram dotados de poderes para proteger o povo das ações arbitrárias dos magistrados.
Por volta de 450 a.C., o direito consuetudinário romano foi codificado pelos decênviros (magistrados especialmente designados para essa missão) e promulgada a Lei das Doze Tábuas, embrião do vasto corpo jurídico que Roma legou ao mundo e que haveria de constituir a base dos sistemas jurídicos modernos. A pressão dos plebeus levou a novas concessões, até que, ao obterem acesso à dignidade sacerdotal, no ano 300 a.C., tornou-se completa a igualdade jurídica entre todos os cidadãos da república.
Expansão territorial. A Roma monárquica havia integrado uma federação de cidades latinas. Quando caíram os reis etruscos, as populações vizinhas deram início a um movimento para exigir maior autonomia, o que obrigou Roma a intensificar suas ações militares até reconstruir a antiga Liga Latina, dessa vez sob seu predomínio. Ao longo do século V, Roma dominou diversos povos. A vizinha cidade etrusca de Veios, principal rival de Roma, foi destruída em 396 a.C., ao fim de dez anos de guerra.
Invasão dos gauleses. No início do século IV, povos celtas procedentes da planície da Europa central invadiram o norte da Itália e venceram os etruscos. Prosseguindo seu avanço pela península, chocaram-se com as forças romanas junto ao rio Ália e as derrotaram em 390 a.C. Os celtas apoderaram-se então de Roma e a incendiaram ao abandoná-la, depois de reunir um grande saque. Roma se recuperou rapidamente e em poucos anos se transformou na maior potência da Itália central, ao mesmo tempo que as cidades etruscas entravam em decadência, vítimas dos constantes ataques gauleses, que contribuíram para arruinar sua civilização. Data dessa época a muralha Serviana, que protegia uma Roma de dimensões já bastante consideráveis.
Conquista da Itália. A cidade de Cápua, situada na Campânia, a sudeste de Roma, solicitou sem êxito a ajuda dos romanos para enfrentar os samnitas, seus inimigos. A poderosa comunidade samnita infiltrada em Roma -- que se transformava numa metrópole para a qual acorriam imigrantes das mais diversas etnias -- conseguiu que a cidade de Roma se voltasse contra Cápua. Depois que esta foi derrotada, os samnitas deram início a uma série de guerras contra seus vizinhos, o que acabou por lhe valer o domínio da Itália. A segunda guerra samnita, em que as forças romanas foram vencidas, terminou em 321 a.C. com a chamada Paz Caudina, uma alusão ao humilhante desfile a que foram obrigados os romanos derrotados pelo desfiladeiro samnita de Caudinae Forculae. Entretanto, na terceira guerra samnita, de 298 a 290 a.C., as forças romanas conseguiram a esmagadora vitória de Sentino, contra uma coligação formada por seus principais inimigos.
Todo o centro da Itália caiu então sob o poderio de Roma. O expansionismo de Roma, já convertida em grande potência, voltou-se para as ricas cidades gregas do sul da península. A poderosa Tarento caiu em suas mãos em 271 a.C. e logo toda a península itálica tornou-se romana.

Roma submetia as cidades dominadas a regimes jurídicos diversos. Basicamente, respeitou as instituições governamentais de cada uma delas e executou uma hábil política, concedendo, em alguns casos, a cidadania romana a seus habitantes, embora sem direitos políticos na metrópole. O resultado foi a conquista de um vasto território em que a ordem jurídica se encontrava uniformizada e garantida, o que permitiu o incremento das relações comerciais e a manutenção de um poderoso exército. Logo foram construídas as primeiras grandes vias de comunicação terrestre e estabelecido o domínio marítimo da costa da península. Cidadãos romanos estabeleceram colônias, primeiro no Lácio e depois no resto da península itálica, o que contribuiu para a integração do território.
Expansão mediterrânea. Em meados do século III, Roma -- senhora da península itálica -- empreendeu a expansão que a tornaria dona do Mediterrâneo. Para isso, era inevitável o confronto com um poderoso inimigo: Cartago. A cidade norte-africana dominava um extenso império comercial que incluía, além das costas africanas, o sul da península ibérica, a Córsega, a Sardenha e a maior parte da Sicília. Todas as três ilhas caíram em poder dos romanos após a primeira guerra púnica, de 264 a 241 a.C. Mais tarde, Roma deu início à colonização do vale do Pó e se impôs aos gauleses, os quais ali se estabeleceram no século IV.
Também as costas orientais do mar Adriático caíram sob a influência romana em conseqüência das campanhas empreendidas contra os piratas que tinham suas bases no litoral de Ilíria. Uma nova guerra com Cartago -- a segunda guerra púnica -- começou em 218 a.C. Quando chegou ao fim, em 201 a.C., a cidade africana havia deixado de ser uma potência rival, e grande parte da península ibérica caiu, com suas riquezas minerais, em poder de Roma. A terceira guerra púnica, de 149 a 146 a.C., terminou com a destruição definitiva de Cartago e com a incorporação a Roma dos restos de seu império.

Ao mesmo tempo em que estabelecia seu domínio sobre o Mediterrâneo ocidental, Roma empreendeu a expansão pela zona oriental. A intervenção na Macedônia e Grécia teve início na época da segunda guerra púnica, mas a Macedônia só se tornou província romana em 148 a.C. Dois anos mais tarde, a destruição de Corinto punha fim às aspirações de independência dos gregos. Em 133 a.C., Átalo III, rei de Pérgamo, legou seu reino a Roma, com o que os domínios da cidade chegaram pela primeira vez à Ásia. Somente no início do século I a.C. Roma reiniciou sua expansão pela Anatólia, Síria e Judéia.
A partir do ano de 125 a.C., com os ataques de címbrios e teutões à recém-organizada província Gália Narbonense, atual sul da França, teve início a ocupação romana com o objetivo de estabelecer uma via de comunicação terrestre entre a Itália e os domínios ibéricos. Esses povos, procedentes da Jutlândia, desceram pela Europa central até chocar-se com as legiões romanas, que foram por elas derrotadas em Orange, no ano 105 a.C. Ante a lembrança da antiga invasão gaulesa, Roma reuniu todas as suas forças e o cônsul Caio Mário conseguiu obrigar os invasores nórdicos a retroceder, rechaçando os címbrios e teutões da Gália no período entre 105 a 101 a.C.
Evolução da sociedade romana. Depois que Roma se tornou centro de um grande território, os habitantes da cidade, que nos primeiros tempos da república constituíam um povo sóbrio, guerreiro e trabalhador, começaram a desfrutar as imensas riquezas acumuladas. Desapareceu o serviço militar como direito e dever do cidadão. As legiões começaram então a ser formadas com mercenários procedentes de toda a Itália e, mais tarde, de todas as regiões dominadas, o que provocou uma grande mistura de etnias e costumes. A Grécia foi saqueada e seus tesouros artísticos enviados a Roma. As classes altas, a começar por algumas famílias como a dos Cipiões, assimilaram a cultura helênica, que foi protegida e imitada. Os prisioneiros de guerra constituíram um imenso exército de escravos, cujo trabalho barato nas grandes propriedades e nas manufaturas arruinou os camponeses e os artesãos livres da península itálica.
O sistema econômico, muito monetarizado, permitiu notável acúmulo de capital. Os grandes comerciantes e banqueiros romanos pertenciam em geral à classe dos cavaleiros (equites), intermediária entre as grandes famílias que dividiam as cadeiras do Senado e as classes baixas. O proletariado romano transformou-se numa classe ociosa que vivia miseravelmente das subvenções e distribuições de alimentos, freqüentava as termas e era entretida com jogos públicos e circo. A própria Roma tornou-se uma grande cidade parasita, que importava grande quantidade de mercadorias de luxo e especiarias orientais, trigo da Sicília e do norte da África, azeite da Espanha e escravos de todo o imenso território colonial. O velho sistema político republicano, edificado por e para uma cidadania identificada com sua cidade, era cada vez menos capaz de funcionar numa sociedade enriquecida que perdera seus ideais. Teve início assim um longo período de instabilidade interna que só cessou quando a velha república romana se transformou em império.

Ditaduras e guerras civis. As últimas décadas do século II registraram lutas sociais que tiveram como protagonistas os irmãos Tibério e Caio Graco, eleitos tribunos da plebe. Já não se tratava, como no início da república, da reivindicação de igualdade de direitos por parte dos plebeus, mas do protesto do povo, reduzido à miséria, contra os ricos e, muito especialmente, contra a nobreza senatorial, proprietária da maior parte das terras da Itália.
Mais tarde, generais vitoriosos como Mário, vencedor dos címbrios e teutões, e Sila, pacificador da Itália, aproveitaram o poderio de seus exércitos e sua popularidade entre o povo para tentar apoderar-se do estado romano. O Senado, temeroso de sua influência, interveio mais ou menos abertamente contra eles. As classes altas tentavam consolidar as instituições republicanas, enquanto o povo desejava, com determinação cada vez maior, um governante único. Por outro lado, as possessões orientais, cuja influência no mundo romano era considerável, careciam de tradição republicana e seus habitantes consideravam natural o fato de serem governados por autocratas divinizados.
A guerra social eclodiu na Itália quando os habitantes da península exigiram a cidadania romana para terem acesso à distribuição das terras públicas. Em 91 a.C., estendeu-se pela península uma verdadeira guerra civil que só terminou quando, ao fim de três anos, foi concedida a cidadania romana a todos os italianos.
No ano 88 a.C. rebentou na Anatólia uma rebelião contra o poder de Roma. O Senado confiou o comando do exército, encarregado de reprimi-la, a Lúcio Cornélio Sila, mas a plebe romana o destituiu e colocou Mário em seu lugar, o vencedor dos invasores bárbaros, que simpatizava com o partido popular.
À frente das tropas expedicionárias, Sila tomou Roma, desterrou Mário e restabeleceu o poder senatorial. Quando Sila retomou o caminho da Ásia, os partidários de Mário aproveitaram-se de seu afastamento para se apoderar mais uma vez da capital. Após restabelecer a autoridade de Roma no Oriente, Sila voltou à metrópole. Os partidários de Mário foram derrotados em 82 a.C. e se estabeleceu em Roma um regime ditatorial. No poder, Sila fortaleceu a posição das classes altas e limitou as atribuições dos tribunos da plebe, que foram privados do direito de veto, de convocação do Senado e de apresentação de projetos de lei à assembléia sem autorização senatorial. Sila deixou voluntariamente o poder em 79 a.C., pouco antes de sua morte.
Em 73 a.C. eclodiu uma rebelião de escravos liderados pelo gladiador Espártaco. Durante dois anos, um grande contingente de escravos rebeldes colocou em perigo as próprias bases da república romana, até que foram exterminados pelo exército, sob o comando de Pompeu. O mesmo cônsul conseguiu a vitória na luta contra os piratas e nas guerras do Oriente, o que lhe permitiu voltar triunfalmente a Roma. O Senado, temeroso de seu prestígio, desautorizou seu trabalho legislativo no Oriente e sua promessa de distribuir terras aos veteranos da guerra. Em represália, Pompeu se aliou a dois outros líderes poderosos, Júlio César e Marco Licínio Crasso, para enfrentar a nobreza senatorial.
O primeiro triunvirato, estabelecido em 60 a.C., manteve o equilíbrio de poder durante vários anos, ao longo dos quais César promoveu a conquista das Gálias e expedições além do Reno e do canal da Mancha. O Senado procurou o apoio de Pompeu, em 52 a.C., para destruir o crescente poder de César. Eclodiu então uma guerra civil e os partidários de Pompeu foram derrotados em todas as regiões do mundo romano. César fez-se nomear ditador perpétuo e assumiu plenos poderes. Em pouco tempo, modificou a legislação romana, o censo de cidadãos e o calendário. A 15 de março de 44 a.C., foi assassinado por um grupo de senadores.


O Senado tentou recuperar seu antigo poder, mas a revolta do povo romano após os funerais do ditador desencadeou novo período de lutas civis e repressão. Em 43 a.C., constituiu-se um segundo triunvirato, integrado por Marco Antônio, Marco Emílio Lépido e Caio Otávio (chamado depois Augusto), que o Senado foi obrigado a reconhecer. Os triúnviros dividiram os domínios de Roma, mas nem por isso cessaram as lutas internas. Lépido foi neutralizado, Otávio ocupou habilmente o poder no Ocidente e Marco Antônio, impopular em Roma devido a seu comportamento de déspota oriental, foi derrotado em Actium (Áccio) em 31 a.C. Com sua morte, Otávio tornou-se o único senhor de Roma. A queda de Alexandria e o suicídio da rainha Cleópatra -- aliada de Marco Antônio -- deixaram o Egito em mãos de Otávio, que o incorporou a Roma como patrimônio pessoal.
Império.
Otávio Augusto. Depois de um século de lutas civis, o mundo romano estava desejoso de paz. Otávio se encontrou na situação daquele que detém o poder absoluto num imenso império com suas províncias pacificadas e em cuja capital a aristocracia se encontrava exausta e debilitada. O Senado não estava em condições de opor-se aos desejos do general, detentor do poder militar. A habilidade de Augusto -- nome adotado por Otávio em 27 a.C. -- consistiu em conciliar a tradição republicana de Roma com a de monarquia divinizada dos povos orientais do império. Conhecedor do ódio ancestral dos romanos à instituição monárquica, assumiu o título de imperador, por meio do qual adquiriu o imperium, poder moral que em Roma se atribuía não ao rei, mas ao general vitorioso.
Sob a aparência de um retorno ao passado, Augusto orientou as instituições do estado romano em sentido oposto ao republicano. A burocracia se multiplicou, de forma que os senadores se tornaram insuficientes para garantir o desempenho de todos os cargos de responsabilidade. Isso facilitou o ingresso da classe dos cavaleiros na alta administração do império. Os novos administradores deviam tudo ao imperador e contribuíam para fortalecer seu poder. Pouco a pouco, o Senado -- até então domínio exclusivo das antigas grandes famílias romanas -- passou a admitir italianos e, mais tarde, representantes de todas as províncias. A cidadania romana ampliou-se lentamente e somente em 212 da era cristã o imperador Marco Aurélio Antonino, dito Caracala, reconheceu todos os súditos do império.
O longo período durante o qual Augusto foi senhor dos destinos de Roma, entre 27 a.C. e 14 da era cristã, caracterizou-se pela paz interna (pax romana), pela consolidação das instituições imperiais e pelo desenvolvimento econômico. As fronteiras européias foram fixadas no Reno e no Danúbio, completou-se a dominação das regiões montanhosas dos Alpes e da península ibérica e empreendeu-se a conquista da Mauritânia.
O maior problema, porém, que permaneceu sem solução definitiva, foi o da sucessão no poder. Nunca existiu uma ordem sucessória bem definida, nem dinástica nem eletiva. Depois de Augusto, revezaram-se no poder diversos membros de sua família. A história salientou as misérias pessoais e a instabilidade da maior parte dos imperadores da dinastia Júlio-Cláudia, como Caio Júlio César Germânico, dito Calígula, imperador de 37 a 41, e Nero Cláudio César, de 54 a 68. É provável que tenha havido exagero, pois as fontes históricas que chegaram aos tempos modernos são de autores que se opuseram frontalmente a tais imperadores.
Mas se a corrupção e a desordem reinavam nos palácios romanos, o império, solidamente organizado, parecia em nada ressentir-se. O sistema econômico funcionava com eficácia, registrava-se uma paz relativa em quase todas as províncias e além das fronteiras não existiam inimigos capazes de enfrentar o poderio de Roma. Na Europa, Ásia e África, as cidades, bases administrativas do império, cresciam e se tornavam cada vez mais cultas e prósperas. As diferenças culturais e sociais entre as cidades e as zonas rurais que as cercavam eram enormes, mas nunca houve uma tentativa de diminuí-las.
Ao primitivo panteão romano juntaram-se centenas de deuses e, na religião como no vestuário e em outras manifestações culturais, difundiram-se modismos egípcios e sírios. A partir de suas origens obscuras na Judéia, o cristianismo foi-se aos poucos propagando por todo o império, principalmente entre as classes baixas dos núcleos urbanos. Em alguns momentos, o rígido monoteísmo de judeus e cristãos se chocou com as conveniências políticas, ao opor-se à divinização, mais ritual que efetiva, do imperador. Registraram-se então perseguições, apesar da ampla tolerância religiosa de uma sociedade que não acreditava verdadeiramente em nada. O Império Romano só começou a ser rígido e intolerante em matéria religiosa depois que adotou o cristianismo como religião oficial, já no século IV.
O século II, conhecido como o século dos Antoninos, foi considerado pela historiografia tradicional como aquele em que o Império Romano chegou a seu apogeu. De fato, a população, o comércio e o poder do império se encontravam em seu ponto máximo, mas começavam a perceber-se sinais de que o sistema estava à beira do esgotamento. A última grande conquista territorial foi a Dácia e na época de Trajano (98-117) teve início um breve domínio sobre a Mesopotâmia e a Armênia. Depois dessa época, o império não teve mais forças para anexar novos territórios.
Decadência do império. Uma questão que os historiadores nunca conseguiram esclarecer de todo foi a da causa da decadência de Roma. Apesar da paz interna e da criação de um grande mercado comercial, a partir do século II não se registrou nenhum desenvolvimento econômico e provavelmente também nenhum crescimento populacional. A Itália continuava a registrar uma queda em sua densidade demográfica, com a emigração de seus habitantes para Roma ou para as longínquas províncias do Oriente e do Ocidente. A agricultura e a indústria se tornavam mais prósperas quanto mais se afastavam da capital.
No fim do século II, começou a registrar-se a decadência. Havia um número cada vez menor de homens para integrar os exércitos, a ausência de guerras de conquista deixou desprovido o mercado de escravos e o sistema econômico, baseado no trabalho da mão-de-obra escrava, começou a experimentar crises em conseqüência de sua falta, já que os agricultores e artesãos livres haviam quase desaparecido da região ocidental do império. Nas fronteiras, os povos bárbaros exerciam uma pressão crescente, na tentativa de penetrar nos territórios do império. Mas se terminaram por consegui-lo, isso não se deveu a sua força e sim à extrema debilidade de Roma.
As cidades também começaram a entrar em decadência e os ricos burgueses que habitavam os centros urbanos se viram às voltas com obrigações e impostos cada vez mais altos. Em conseqüência, os proprietários rurais voltaram para suas propriedades, onde se encontravam mais protegidos do assédio do fisco imperial. O esvaziamento dos centros urbanos, muito intenso na região ocidental, deixou o império sem sua base social. Voltou-se à autarquia de cada território e o comércio decaiu. A navegação tornou-se mais difícil. O poder do estado enfraqueceu e, em compensação, os grandes proprietários rurais começaram a organizar pequenos exércitos privados e a administrar a justiça em seus domínios.
O século III viu acentuar-se o aspecto militar dos imperadores, que acabou por eclipsar todos os demais. Registraram-se diversos períodos de anarquia militar, no transcurso dos quais vários imperadores lutaram entre si devido à divisão do poder e dos territórios. As fronteiras orientais, com a Pérsia, e as do norte, com os povos germânicos, tinham sua segurança ameaçada. Bretanha, Dácia e parte da Germânia foram abandonadas ante a impossibilidade das autoridades romanas de garantir sua defesa. Cresceu o banditismo no interior, enquanto as cidades, empobrecidas, começavam a fortificar-se, devido à necessidade de defender-se de uma zona rural que já não lhes pertencia. O intercâmbio de mercadorias decaiu e as rotas terrestres e marítimas ficaram abandonadas. Um acelerado declínio da população ocorreu a partir do ano 252, em conseqüência da peste que grassou em Roma.
Os imperadores Aureliano, regente de 270 a 275, e Diocleciano, de 284 a 305, conseguiram apenas conter a crise. Com grande energia, o último tentou reorganizar o império, dividindo-o em duas partes, cada uma das quais foi governada por um augusto, que associou seu governo a um césar, destinado a ser o seu sucessor. Mas o sistema da tetrarquia não deu resultados. Com a abdicação de Diocleciano, teve início uma nova guerra civil.
Constantino I favoreceu o cristianismo, que gradativamente passou a ser adotado como religião oficial. A esclerose do mundo romano era tal que a antiga divisão administrativa se transformou em divisão política a partir de Teodósio I, imperador de 379 a 395, o último a exercer sua autoridade sobre todo o império. Este adotou a ortodoxia católica como religião oficial, obrigatória para todos os súditos, pelo edito de 380.
Teodósio I conseguiu preservar a integridade imperial tanto ante a ameaça dos bárbaros quanto contra as usurpações. No entanto, sancionou a futura separação entre o Oriente e o Ocidente do império ao entregar o governo de Roma a seu filho Honório, e o de Constantinopla, no Oriente, ao primogênito, Arcádio. A parte oriental conservou uma maior vitalidade demográfica e econômica, enquanto que o império ocidental, no qual diversos povos bárbaros efetuavam incursões, umas vezes como atacantes outras como aliados, se decompôs com rapidez.
O rei godo Alarico saqueou Roma no ano 410. As forças imperiais, somadas às dos aliados bárbaros, conseguiram entretanto uma última vitória ao derrotar Átila nos Campos Catalaúnicos, em 451. O último imperador do Ocidente foi Rômulo Augústulo, deposto por Odoacro no ano 476, data que mais tarde viria a ser vista como a do fim da antiguidade. O império oriental prolongou sua existência, com diversas vicissitudes, durante um milênio, até a conquista de Constantinopla pelos turcos, em 1453.
Legado de Roma. A civilização romana foi original e criadora em vários campos: o direito romano, codificado no século VI, ao tempo do imperador Justiniano, constituiu um corpo jurídico sem igual nos tempos antigos e forneceu as bases do direito da Europa medieval, além de ter conservado sua vigência, em muitas legislações, até os tempos modernos. As estradas romanas, perfeitamente pavimentadas, uniam todas as províncias do império e continuaram a facilitar os deslocamentos por terra dos povos que se radicaram nas antigas terras imperiais ao longo dos séculos, apesar de seu estado de abandono. Conservaram-se delas grandes trechos e seu traçado foi seguido, em linhas gerais, por muitas das grandes vias modernas de comunicação. As obras públicas, tais como pontes, represas e aquedutos ainda causam impressão pelo domínio da técnica e o poderio que revelam. Muitas cidades européias mostram ainda em seu conjunto urbano os vestígios das colônias romanas que foram no passado.
Se, em linhas gerais, a arte romana não foi original, Roma teve o mérito de haver sabido transmitir à posteridade os feitos dos artistas gregos. Os poucos vestígios que sobreviveram da pintura romana mostram que as tradições gregas continuavam vivas. Os temas indicam a crescente preocupação religiosa, a serviço dos imperadores divinizados; referem-se, principalmente, à imortalidade da alma e à vida de além-túmulo. O cristianismo se valeu do Império Romano para sua expansão e organização e depois de vinte séculos de existência são evidentes as marcas por ele deixadas no mundo romano.
O latim, idioma que a expansão romana tornou universal, está na origem das atuais línguas românicas, tais como o espanhol, o italiano, o português, o francês, o catalão e o romeno. Depois de quase dois mil anos, pode-se ainda falar de um mundo latino de características bem diferenciadas.

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